Prazer matemático

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Quando ouviu o despertador, ele tateou, incerto, na tentativa de prender aquele som malvindo. Pouco depois, abriu os olhos, espiando pela fresta da persiana entreaberta. A manhã acordara fria; vestia um manto cinza, grosso, pesado. Enfiou a cabeça nas cobertas quentes, que acentuavam ainda mais a sensação de desagrado com aquele dia que parecia prometer, já de saída, não ser bom.
Levantou-se e andou em direção ao chuveiro como se grilhões de espesso metal o prendessem ao chão. Ao empurrar a porta do banheiro, arfava. Ficou ali, parado, olhar fixo, mente a cavalgar alucinada, respiração inquieta a denunciar alguma coisa.
Com um gesto mecânico, voltou-se para a esquerda, na direção da banheira. Um corpo em estranho movimento inacabado, desenhava um pedido de socorro. Os lábios, contorcidos, deixavam à mostra dentes que pareciam pequenas pérolas. O nó da gravata frouxo e alguns botões da camisa abertos denunciavam a musculatura trabalhada. As mãos, mas principalmente as unhas, determinavam distância de qualquer esforço físico.
Uma enorme descarga elétrica atravessou-o, ao focar o filete de sangue desenhado em curva, que amarrava um dos pulsos a uma poça vermelha acumulada no ladrilho branco. O que significava aquilo, afinal? Flashes de memória saltaram confusos, sem sentido. Um balcão de bar, barulho de trem, o molho de chaves a tilintar girando na fechadura, uma voz macia e, então estremeceu, um sorriso com dentes que pareciam pequenas pérolas.
Somente aí percebeu: vestia a roupa que usara na manhã anterior. Lembrou da zonzeira, do enjôo forte, do teto ondulando sobre sua cabeça e de alguém que caminhava na direção do banheiro.
Raciocinou rápido, quase na velocidade do choque que o atravessara. Recompôs-se, limpou meticulosamente cada detalhe do banheiro. Enlaçou aquele corpo estranho, com certa sensação de enfado, depositando-o em uma das malas de viagem. A outra, abriu sobre a cama, selecionando com cuidado camisas, ternos, gravatas e calçados. Tudo precisava combinar em cada detalhe. Chamou o elevador sem pressa. O porteiro, sempre solícito, depositou a bagagem no porta-malas com cuidado, apesar do esforço que exigira, principalmente a maior.
Era muito cedo ainda, e a manhã decidira, com obstinação, ser fria e cinzenta, providenciando, para que o cenário ficasse irretocável, uma espessa névoa que transformava corpos em vultos, mesmo a pequena distância. Ele parou o carro na borda da ponte, abriu o porta-malas e num movimento rápido, preciso mesmo, desfez-se da pesada carga, que afundou em segundos.
Quarenta e cinco minutos depois, embarcava em seu vôo. A sensação desagradável que iniciara seu dia deu lugar a uma excitação quase delirante de prazer, que aumentou ao apanhar, no bolso do paletó, a pequena caderneta com capa de couro onde assinalou: 17.