Presente eterno

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Um primeiro olhar, menos atento, não viu muito, até porque o lugar era quase lúgubre. Quando as pupilas se acostumaram com aquela penumbra, porém, as ranhuras, incrustradas pela cor do tempo na tinta craquelada das paredes, corriam como veias endurecidas. Uma velha máquina de costura sobre um tampo ainda mais velho gemia seguindo com dificuldade o movimento trêmulo dos pés cansados daquele ancião de costas muito curvas e olhar embaçado.
Naquele lugar caricato onde, se supunha, fora a recepção, duas bolas douradas grandes, presas a uma fita de cetim puída, justificavam a presença de cartões de Natal, cobertos por grossa lâmina de poeira. Mas estávamos em julho, o que significaria aquilo?
Num primeiro momento, nada ali parecia ter sentido. Até que aquela voz, tão cansada quanto os pés e tão apagada quanto o olhar, abriu a porta do tempo, dando espaço à luz que, incidindo sobre a cor dourada dos enfeites, refletia pequeninos raios que pareciam movimentar os laço púrpura de cetim que os envolvia quase com sensualidade; até que as paredes, em tom pêssego, lembrassem a pele macia daquele rosto moldurado pelo cabelo voluptuoso que roçava os ombros descobertos e insinuava-se, provocante, no decote em vê profundo; até que eu percebesse para onde me levara o ancião.
Foi possível, então, compreender o que se passava ali. Aquele ancião que carregava nos ombros a carga quase impossível de continuar sozinho descobrira o remédio para a dor insuportável de sobreviver. Tudo permanecera exatamente como naquele último instante mágico, irretocavelmente igual. Já não existia mais passado, o futuro jamais chegaria. Ele estava ali, em paz, no presente eterno.