De velhas aquarelas e novos quadros

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Os dois encetavam, cotidianamente, aquele jogo sinistro. Eram sempre rounds de uma disputa surda, que não acabava, apenas tinha intervalos. Sequer sabiam quem iniciava o embate. Apenas entravam naquela ciranda sem fim, convocando-se mutuamente ao exercício da dor e do sofrimento.
Aos poucos ela foi compreendendo aquele mecanismo. Cansada das tentativas de provar amor incondicional, fez um longo silêncio, surda a provocações, não cega às injustiças.  
Ele não suportou. Partiu, enfim,  plenamente justificado.
Os primeiros tempos foram difíceis. Doía não sentir dor. Para suportar a ausência, ela rememorava alguns dos rounds, em câmera lenta, com cuidado quase delicado. Houve aquela vez em que a bofetada estalou forte, desenhando no rosto a mão grossa. Como a pele fosse muito macia e clara, rompeu-se de modo uniforme, desenhando uma almofada em relevo vermelho muito intenso, que brilhava em pontos onde se acumularam  gotículas de sangue.
A memória, indomável, rodopiava no tempo, mesmo que ela tentasse afugentar aquele fantasma.  Houve a manhã fria, de um julho rigoroso, em que no calor da discussão ela ousou levantar o rosto e encará-lo fazendo parecer ainda maiores aqueles olhos negros cujo mistério ninguém desvendava. De pronto sentiu-se rodopiar no ar, ouvindo o estalido da testa contra a parede, enquanto a dor insuportável no braço esquerdo, dobrado em  vê contra as costas dizia-lhe às pressas: – Não o encares. Silencia.
Mas nada se comparava ao final de tarde intensamente azul, com um mormaço de janeiro misturando as lágrimas à saliva quente que escorria lenta quando, com desprezo,  ele cuspiu no seu rosto. Estranho, pensava, por muito tempo a cicatriz mais  dolorida fora aquela. Não conseguia esquecer a cena, mas principalmente o cheiro insuportável que a acordava no meio da noite, quando então mergulhava a cabeça na banheira,  compulsiva, até cansar.
Aos poucos dor e lembranças foram esmaecendo, como aquarelas expostas ao sol. Naquela manhã, encontrou-o por acaso.  Num primeiro momento, o medo revigorado sacudiu-a da cabeça aos pés. Em seguida, deu-se conta de que circulava, agora, em outra dimensão. Não havia como ele alcançá-la.
Seguiu, encantada com o cheiro de primavera da calçada florida. Em casa, quis revisitar a galeria de aquarelas desbotadas. Não conseguiu. Estavam todas apagadas: telas a espera de novas tintas, vibrantes.