Há sempre um (re)começo

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Os primeiros tempos foram de alegria desmedida. Levantava no meio da noite, com cuidado delicado, movimentando-se pelo apartamento. Pequenas surpresas em cada canto imprimiam no corpo sobressalto de excitação.
Encolhida no canto da enorme poltrona de couro macio, não se dera conta de que a noite avançava. Como as lâmpadas estivessem todas apagadas, a luz da lua entrava sorrateira pela fresta da varanda, iluminando apenas sua frágil silhueta. Com olhar fixo no lustre que pendia do teto, ela tentava recompor aquele espaço do passado. Comprimia os olhos grandes, como se deles pudessem saltar as velhas imagens.
Nos primeiros dias após a partida dele, ela levantava, ainda com cuidado delicado, e relia algumas das histórias que haviam inscrito naquelas paredes, naquele espaço que agora a sufocava. Foram muitas noites de leituras, até que ela percebesse a polifonia daqueles textos todos. Até que compreendesse que outras leituras seriam possíveis.
Aos poucos, então, sempre com muito cuidado, redesenhou aquele lugar, inscreveu nele, finalmente, marcas que eram suas, começou a compor sua história. Parada ali, dava-se conta de muitas coisas que antes não conseguia ler. O tampo de mármore gelado daquelas mesas na sala de estar; aquele quarto pesado, com móveis escuros; a solene e comprida mesa de granito eram marcas que ela não conseguira apagar e compreendia, agora, porquê. Aquelas eram inscrições que não lhe pertenciam, mas que também não eram dele. Sim, ele as trouxera, e as deixara ali, como escaras entalhadas naquele corpo delicado, incumbido de levar adiante uma história que nunca fora a sua, mas a qual ela se prendera com força, atada ao fantasma de que nunca tivera uma própria.
O tempo voou, como que a afastar com pressa aquela luz prata da lua que, curiosa, insistia em espiar pela fresta da varanda. Quando ela desviou os olhos do lustre, percebeu que amanhecera e que alguns raios tímidos de sol insinuavam-se pela porta que esquecera de fechar. Levantou, suavemente, como se aquele movimento fosse parte de um ritual sagrado. Apanhou a pequena mala de couro macio, caminhou até a porta, girou delicada a chave na fechadura e partiu. Enfim, havia chegado. Tinha início a sua história.