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Velha, propriamente, ela não era. Não chegara aos 60, embora faltasse pouco. Mas perdera a paciência para algumas coisas que no passado tolerara com destemor. Depois de 45 minutos na fila, senha em punho, sentiu os olhos brilharem ao ver uma garotinha, que, com certeza, ainda não chegara aos 18 anos, aproximar-se do balcão de atendimento e usando o uniforme das outras três atendentes, que já estavam, celulares em punho, cumprindo sua hercúlea missão. Quem pensar que a hercúlea missão era vender aparelhos, errou, redondamente. A missão era fazer andar o sistema, que me lembrava a piada sobre computadores nacionais não terem memória, apenas vaga lembrança.

Bem, a garota, sua salvação, chegara ao posto. A próxima senha, tinha certeza, era a sua. Sorridente, cabelos encaracolados brilhantes, ela meneava a cabeça, mostrando à coleguinha os brincos novos, enquanto ria muito, contando, em detalhes, a aventura que lhe acontecera pela cidade, no intervalo para o almoço, motivo óbvio do atraso pelo qual se desculpava sem muita convicção.

Findo o primeiro capítulo da novela, e decorridos 45 minutos da chegada da pobre mulher à loja, iniciou o que seria o verdadeiro terror: outro bom punhado de minutos à espera de que a colega ao lado liberasse o celular. Sim, eu disse liberasse o celular, porque eram quatro garotas a prestar atendimento simultâneo, com apenas três aparelhos. Sim, fui clara, muito clara: quatro atendentes, quatro filas e três aparelhos. Decorrida uma 1h e 35min., a pobre mulher, já à beira de uma crise nervosa, recebeu o aparelho que substituiria o seu, cuja bateria entregara os pontos. A coitada, respirando fundo, saiu da loja provocando vento e a murmurar: nunca mais me pegam, claro.