Uma vida de amor

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Ela nem sempre fora assim. Os cabelos, muito ralos e agora curtos, alvos a ponto de refletir tons prateados, tinham sido longos, encaracolados e negros. Os pequeninos olhos, que pareciam desligados da realidade, vagando errantes a procura de memórias que o cérebro tentava, em vão, escanear, tinham sido brilhantes e astutos, como os de um pequeno pássaro. De fala mansa e escassa, mas incisiva, lembrava, naquele passado longínquo, um delicado sabiá.
Por trás daquela cortina de esquecimentos, porém, ferviam as labaredas do antigo amor, paixão tão desenfreada a ponto de apagar, lentamente, qualquer vontade que não fosse a dele, qualquer sonho que não o incluísse, qualquer memória que não estivesse ligada à devoção que ofertara, em silêncio quase absoluto, mesmo à custa daquela nuvem de tristeza que se apossara, aos poucos, do olhar antes vívido e atento.
Onde estaria ele? Agora dera em desaparecer, assim, sorrateiro, julgando, talvez, que ela não percebesse. E a cada retorno ela deixava claro seu desagrado. Com arrulhos delicados que devolviam ao olhar o brilho do passado, feito pequenina pomba, registrava sua queixa, para em seguida recolher-se ao interior daquelas memórias, onde brincava com os muitos irmãos, desenhando, com base sólida, a família que constituiria anos mais tarde ao lado daquele grande amor.
Foram três os filhos, já não lembrava seus nomes, mas às vezes conseguia traçar seus perfis, graças à presença  de algumas daquelas pessoas tão bondosas que a visitavam, parecia-lhe, com muita frequência. A chegada do jovem rapaz era quase esperada; quando o via, presente e passado misturavam-se e ela, num passe mágico, voltava no tempo, ao lado daquele grande amor.
As duas mulheres não lhe diziam muito, mas gostava de vê-las, por sentir, quase que instintivamente, alguma coisa que a ligava, também, àquele passado remoto. Quando entravam juntas – elas pareciam conhecerem-se bem – um flash disparava e ela se via num enorme tapete de grama verde, a brincar com duas garotinhas risonhas, uma com grandes olhos negros e a outra com os dentinhos todos separados.
Mas onde estariam todos agora? Onde estaria ele, que lhe aparecera pela manhã especialmente arrumado, com a cabeleira prata impecável, o colarinho muito engomado e os sapatos reservados aos dias de festa? O que julgava, afinal? Que ela fosse ingênua?
A poucos quilômetros dali, um grande grupo, absolutamente emocionado, assistia ao recontar de uma longa história de vida e de amor. Ele completava 90 anos. Feliz, sorria e agradecia a todos as homenagens, mas uma ponta de inquietação se manifestava na mãos calejadas, que comprimia em alguns momentos. Ela estava em casa, aguardava, ansiosa, seu retorno. Não podia tardar.