Descompasso

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Ela pertencera sempre a dois mundos. Era como se andasse em dois compassos.
No dedo médio, uma pequenina saliência denunciava pelo menos a primeira metade do século passado, quando – criança – desenhava com cuidado o alfabeto em seu caderno de caligrafia. Os netos não tinham sequer registro da palavra em seu vocabulário.

No rosto, um sorriso largo, que fazia moldura aos dentes perfeitos. No olhar, azul profundo, uma tristeza que não havia como esconder. No porta-retratos, o abraço dos filhos. Na memória, o vazio do último encontro – a despedida.

Na pequena caixa, juras de amor, promessas de felicidade, algumas pétalas há muito sem perfume. Sobre o console, na sala de estar do amplo apartamento, uma pilha empoeirada de cartões devolvidos pelo correio.

No cabelo, as marcas do tempo, desenhadas com grossas mexas muito alvas, que davam ao semblante uma aparência ainda mais pálida. Nos lábios – rosados e grossos – a jovem falante que fora. No relógio, os dois ponteiros muito juntos, sobrepostos, apontando para o número 12. No silêncio dolorido, a impossibilidade de saber quem compunha o cenário: o sol ou a lua?

Na respiração em descompasso, a sede de vida, a vontade de recomeçar. Entre os dedos, o frasco vazio. Na última lembrança, vozes, risos… silêncio, sem despedida.