Chega de máscara. Queremos ver as caras

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Ninguém é inocente. O importante, é que os outros não percebam.

Quando vamos aprender que o corpo humano se compõe de células, milhares, milhões delas, com diferentes papeis e funções? Quando vamos admitir que a pluralidade é a responsável pelo avanço, pelo crescimento? Quando vamos aprender a respeitar a diversidade?

 

Milhares de pessoas reuniram-se, na sexta-feira, 21 de junho, à noite, percorrendo o centro da cidade de Caxias do Sul em protesto a muitas coisas, mas que cabem todas numa mesma cesta: a exploração desmedida, a injustiça social, a corrupção institucionalizada há cerca de cinco séculos. Exatamente – admitamos –, nada disso começou hoje. Suas raízes fazem curvas, voltas, nós, no subterrâneo do poder, independentemente de falarmos em esquerda ou direita. Temos que pensar, portanto, porque cargas d’ àgua esse movimento, que é social, tem que ter um foco. Ele tem muitos focos e, por isso mesmo, quebra uma lógica cartesiana e racionalista ultrapassada e que, convenhamos, cheira a bolor. Essa falta de foco, penso, na verdade, assusta àqueles que detiveram o poder até aqui. Com foco, o controle era mais fácil, mais eficaz, porque todos olhavam para o mesmo lugar, enquanto fora dali “tudo acontecia”.

 

Como ninguém é inocente, interessa jogar os holofotes sobre um grupo de extremistas baderneiros, desequilibrados e doentes, que por sua vez terão seus 15 minutos de fama. Uma mentira repetida muitas vezes, vira verdade. Daí a possibilidade, grande, de esse  detalhe transformado em manchete, acabar reduzindo o entusiasmo das multidões, que por um trabalho bem orquestrado há séculos, não conhece a letra da música, mas acaba cantando alguns refrãos.

De onde vem essa turba? Está a serviço de quem, além da busca de fama? Alguém já se deu conta de que a bandeira desse grupo pode ser a do $ e que alguém, interessado em desbaratar um movimento  que é da população, pode estar financiando tudo isso, incluindo a própria divulgação dos fatos por eles  protagonizados?

 

Não, não é paranoia. É reflexão. É pura lógica. O que falta? Falta vermos as caras dessa gente, seus rostos, de fato, porque eles surgem, badernam, quebram, ouve-se que foram presos, mas não os vemos mais. Por quê? Vemos fotos de multidões coloridas, vídeos difusos da agressão da polícia contra o povo, mas não vemos as caras desses vândalos batendo, quebrando, destruindo. Não vemos a polícia desbaratando essa turba.  Ninguém testemunha isso, apenas ouve-se falar.  Por quê? Onde estão as fotos da baderna acontecendo e da polícia reagindo contra ela? Ninguém consegue um flagrante minimamente convincente? Perdoem, por favor, se sou uma desinformada, se todos viram esses registros menos eu (e não estou falando do que estamos acompanhando pela televisão, onde não se sabe quem é quem, apenas se sabe que quebraram).  Participaram da passeata 35 mil pessoas. Delas, 22 teriam sido presas e uma teria passagem pela polícia. Clipagem: cerca de quatro minutos de fama para 22 anônimos.

 

O que eu vi, por exemplo, foi um bloco de policiais avançando contra a população que nada havia feito. Vimos a polícia jogando bomba dentro de bares, no saguão de hospitais… Vi um vídeo, na internet, que mostra um cordão de policiais avançando. O vídeo foi feito  do conforto de um apartamento, a muitos andares de segurança. Eu estava no chão. O vídeo mostra o cordão avançando e bombas explodindo. Todos se indignam com aquilo, protestando contra os vândalos, que, na realidade, não aparecem.  Mas o que se ouve é que eram skinheads vindos da capital (me poupe). Não estou dizendo que não estivessem lá, embora eu, que estava, não os tenha visto. O que estou dizendo é que esses vídeos têm que mostrar o ataque dos vândalos, para que o ataque da polícia seja, efetivamente, uma resposta. Esses vídeos devem mostrar o ataque de vândalos, o ataque da polícia contra cidadãos e o ataque da polícia contra os vândalos. Esses vídeos e fotos devem mostrar as caras dos bandidos.

 

Chega de bandidos sem cara. Com esses, estamos convivendo há séculos e o que estamos querendo, justamente, é tirar-lhes as máscaras. Chega de máscaras, de meias verdades, da estratégia de dividir a sociedade em bandidos e mocinhos. Somos todos bons e maus, bandidos e mocinhos. A diferença, é que estamos exigindo de alguns que tirem as máscaras e que assumam seu verdadeiro papel. É esse o foco, explico, para aqueles que não conseguem entender quem se expressa por uma outra lógica. Mas devemos admitir, todos, ninguém está disposto a abrir mão de poder.