Descompasso

Ela pertencera sempre a dois mundos. Era como se andasse em dois compassos. No dedo médio, uma pequenina saliência denunciava pelo menos a primeira metade do século passado, quando – criança – desenhava com cuidado o alfabeto em...

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Acho que nasci no século errado

Não dá pra voltar, muito menos avançar. É uma pena. Tenho certeza de que muitos mais se sentem como eu, mas estamos todos de mãos atadas ao nosso destino: conviver com situações que se não fossem trágicas, seriam cômicas....

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Uma vida de amor

Ela nem sempre fora assim. Os cabelos, muito ralos e agora curtos, alvos a ponto de refletir tons prateados, tinham sido longos, encaracolados e negros. Os pequeninos olhos, que pareciam desligados da realidade, vagando errantes...

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Mundo digital

Velha, propriamente, ela não era. Não chegara aos 60, embora faltasse pouco. Mas perdera a paciência para algumas coisas que no passado tolerara com destemor. Depois de 45 minutos na fila, senha em punho, sentiu os olhos...

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Há sempre um (re)começo

Os primeiros tempos foram de alegria desmedida. Levantava no meio da noite, com cuidado delicado, movimentando-se pelo apartamento. Pequenas surpresas em cada canto imprimiam no corpo sobressalto de excitação. Encolhida no canto...

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De velhas aquarelas e novos quadros

Os dois encetavam, cotidianamente, aquele jogo sinistro. Eram sempre rounds de uma disputa surda, que não acabava, apenas tinha intervalos. Sequer sabiam quem iniciava o embate. Apenas entravam naquela ciranda sem fim,...

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Sobre juventude e sobre saber

Quando se é jovem, uma sede de inventar o mundo funciona como  espécie de combustível a dilatar as veias, empurrando tudo para a frente – e às vezes para o ar –  na ânsia de alcançar a linha do horizonte. Na medida em que o...

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Presente eterno

Um primeiro olhar, menos atento, não viu muito, até porque o lugar era quase lúgubre. Quando as pupilas se acostumaram com aquela penumbra, porém, as ranhuras, incrustradas pela cor do tempo na tinta craquelada das paredes,...

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Prazer matemático

Quando ouviu o despertador, ele tateou, incerto, na tentativa de prender aquele som malvindo. Pouco depois, abriu os olhos, espiando pela fresta da persiana entreaberta. A manhã acordara fria; vestia um manto cinza, grosso,...

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Os cães ladram, a caravana passa

Quando temos a alma transparente; quando acreditamos em utopias; quando pensamos que para melhorar esse mundo basta cuidar do próprio nariz, os problemas diminuem, a angústia desaparece e se instala em nossa  alma uma grande...

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